BOOK'S CAT

*** MAGIC LIBRARY - THE BOOKS OF MY LIFE - THE LIFE OF MY BOOKS *** BIBLIOTECA DO GATO - OS LIVROS DA MINHA VIDA - A VIDA DOS MEUS LIVROS

Sunday, January 15, 2006

P. LAFARGUE 92

92-01-16-ls-ie>leituras do ac=ideia ecológica-lafargue-1>livros>manifestsilenc>3483 caracteres

16-1-1992

«QUANDO OS DESEMPREGADOS FOREM FELIZES»

«Segundo calculou Goldwin, se a sociedade dividisse o trabalho por igual entre os seus membros, todas as necessidades de uma vida civilizada poderiam produzir-se trabalhando cada pessoa apenas duas horas por dia.»
Foi o romântico Shelley quem escreveu estas palavras, cinquenta anos antes de Karl Marx. Confirma-se assim que a «libertação do trabalhador» ainda agora vai na praça embora seja já uma reivindicação dos movimentos românticos que acertaram no alvo e que o «Elogio da Preguiça», de Paul Lafargue, glosou em termos que ficaram clássicos.
A campanha para as «30 horas de trabalho semanais» proposta na actualidade, por algumas organizações sindicais europeias, com particular incidência nos finais dos anos 7O e inícios da década de oitenta, continua, obviamente, a ser surdamente combatida pelos partidos de todas as tendências, porta-vozes dos interesses do sistema estabelecido.
Eles sabem que a «alienação do trabalho» por um lado e o «desemprego» por outro - expresso ou latente como espada de Damocles - são ingredientes necessários para que os partidos continuem a desenvolver, quando no poder e cada qual à sua maneira, as suas lógicas de submissão e opressão, já que todos se fundam na ideologia do trabalho, sem que ninguém tenha a coragem de vir defender o descanso e, como lhe chama Lafargue mais provocatoriamente, a «preguiça».
Manter o desemprego é, no fundo, manter a preponderância dos partidos e sindicatos satélites. Redistribuir as horas de trabalho seria caminho andado para a revolução que, evidentemente, não interessa a nenhum dos partidos que parasitam e vampirizam a energia chamada pessoa humana, reduzida na nomenclatura dos políticos e seus ideólogos à categoria de «trabalhador».
Virar do avesso a ideologia do trabalho - raiz de toda a opressão - é o que raros têm tido a coragem de fazer. É, todavia, na sequência lógica e ecológica de Paul Lafargue, precursor do futuro, o que alguns realistas preconizam. Lembro, de 1934, o célebre ensaio da escritora mística de formação marxista, Simone Weil, intitulado «Reflexões sobre as Causas da liberdade e da opressão social» ou, mais recentemente, os ensaios de Michel Bosquet/ André Gorz: «Quando os desempregados forem felizes».
Podiam-no ser já, se os sindicatos, mais interessados em servir o patronato e fazer o jogo do capital, quisessem. No ensaio do caderno número 2 da colecção «100 Dias» acrescentaram-se algumas ideias de fabrico próprio - na oficina da «Frente Ecológica» - às ideias de Michel Bosquet publicadas no semanário «Le Nouvel Observateur», 4 de Dezembro de 1978. A importância do texto e da tese nele defendida - tese que, na «Frente Ecológica» se procurou levar mais longe, quer dizer, radicalizar - justifica que se procurasse incluir, na mesma colecção de cadernos, o texto (parte) de Michel Bosquet e algumas citações de outros autores em que ele se abona. Uma coisa já era clara e certa nessa altura: Trabalho significa bionergia e ecologia é a ciência da energia. Se há saídas alternativas para o desemprego - «esse flagelo social que se quer perpetuar!» - , é Michel Bosquet quem nos indica uma delas, preconizando que os desempregados de todo o mundo se unam numa nova internacional, que só pode ser a Internacional ecologista. Anos mais tarde, alguém aparece, no semanário «Expresso», em sintonia involuntária com tudo isto, a sugerir a formação de um sindicato de desempregados.
***