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Tuesday, July 25, 2006

THOMAS BERNHARD E GEORGES ORWELL EM 1991

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25-7-1991

HUMOR NEGRO EMERGE DE UMA ESPESSA ANGÚSTIA

Um dos maiores escritores contemporâneos, o austríaco Thomas Bernhard, pode agora ser lido em língua portuguesa e nada melhor do que as férias para agarrar «O Náufrago»(*): breve nas suas 140 páginas mas denso e profundo. E «que se lê de um trago».
Findou para sempre a ideia de que o crítico é o juiz que classifica um livro de mau a óptimo. A perspectiva de escala ou relativismo, foi o melhor contributo que a Modernidade trouxe à cultura ocidental. O paradoxo da arte, hoje, é este e está contido, em termos quase didácticos, no romance alegórico de Thomas Bernhard.
Ainda que por um processo de translação alegórica, mas toda a narrativa de Bernhard é uma autobiografia (principalmente mental) na medida em que evidencia manias, dúvidas, inquietações, medos, desesperos que obcecam o escritor no seu próprio trabalho.
O irrisório de todos os actos humanos, a ausência de regras que estipulam onde está o «virtuose» e o virtuosismo, a cilindragem dos discípulos pelos mestres-galinha (que o romance cobre de vários adjectivos pejorativos) é o que Thomas Bernhard pensava de si próprio e dos seus problemas de autor: onde está a linha demarcatória entre o bom e o mau romance, o bom e o mau escritor? Não existe. E não existindo, a sociedade perde o suporte e o autor também. Desabam ambos. E ele atira-se da ponte abaixo.
Ao transferir a história para uma comunidade de músicos, é por demais evidente que Bernhard quer contar-nos, no entanto, as vicissitudes estruturais do escritor e sua vulnerabilidade. Afinal, vivendo na Áustria, pátria da música (?) podia dar assim melhor o arquétipo do artista que ele pretendia.
Se o suicídio (ou seus sucedâneos) aparece como pano de fundo permanente das situações contadas por Bernhard -- cujo fascínio narrativo é indiscutível -- se um ténue fio de humor negro e de ironia emerge de uma espessa angústia, o homem está sempre omnipresente nessas páginas aparentemente supérfluas.
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(*) «O Náufrago», Thomas Bernhard, Ed. Relógio D'Água
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1-1- orwell-3-ls> = leituras selectas - quarta-feira, 25 de Dezembro de 2002-scan

UMA FASCINANTE FÁBULA MODERNA(*)

[Leituras de Verão», «A Capital», 25-7-1991] - Espelho fiel da actualidade política, ontem, hoje e amanhã, a obra do escritor inglês George Orwell continua a contar reedições consecutivas, sem que as suas histórias de antecipação percam verosimilhança e força.
A crítica do autoritarismo não perdeu, infelizmente, oportunidade. E o sistema totalitário da tecnocracia nunca foi denunciado com tanta veemência como no seu «1984», romance de antecipação publicado em 1949.
Fábula política do século XX, «O Triunfo dos Porcos»(') não teve tão grande sucesso como o «1984», mas o seu impacto no imaginário contemporâneo não é menor, nem menor a força com que denuncia o despotismo dos regimes totalitários e também dos chamados democráticos sob a capa da tecnocracia.
Nada escapa à análise deste escritor inglês, nascido na Índia em 1905 e falecido em Londres em 1950, misto de profeta e vidente, que veio combater na Guerra Civil de Espanha, pelo lado das forças anarquistas, depois de romper com a extrema esquerda.
Sob a forma de uma história entre os animais de uma quinta («Animal Farm» é o título original), George Orwell relata neste livro, publicado pela primeira vez em 1945, a degeneração do processo revolucionário russo, mostrando por alegoria como o idealismo pode ser traído pelo poder, pela corrupção e pela mentira. São apenas 120 páginas de leitura apaixonante, que certamente despertarão o apetite para outros livros do autor publicados em língua portuguesa: além do célebre «1984», com edições sucessivas, pode ler-se «Homenagem a Catalunha » (Livros do Brasil), «Na Penúria em Paris e em Londres» (Antígona) e «Recordando a Guerra Espanhola» (Antígona).
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(1) George Orwell, «O Triunfo dos Porcos», Ed. Publicações Europa América
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Leituras de Verão», «A Capital», 25-7-1991
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25-7-1991

MIDAS NO SACO DE PRAIA

A propósito de prosperidade e férias em Miami, não se pode deixar de citar um livro aparecido na grande colecção da Presença «Biblioteca da Gestão Moderna», onde figura com o número 43.
É o célebre Robert Heller, que ensina a ganhar dinheiro como quem bebe um refresco: neste fantástico livro, que você deve passar a ter no saco de praia, se fala «dos novos milhões cada vez mais fáceis de fazer e dos novos milionários» que nascem como cogumelos depois da chuva. Este livro que nos fala das «formas de enriquecimento nos nossos dias», entra no reino dos «yuppies» para nos narrar a carreira desses homens de «vida fácil» que as mulheres de fácil vida não desdenhariam.
O mundo dos «milionarismos» é, como detalhadamente se mostra neste relato aos confins da divindade moderna, um mundo que nada tem a ver com os simples mortais que ainda conseguem ir sobrevivendo como cascas no oceano da Prosperidade.
Uma nova ética( o dinheiro é o Bem), uma nova estética(só o luxo é belo) e uma nova religião (deus está com os ricos) emergem destes «novos milionários». E não se compreende como os escritores de ficção continuam a debitar os temas tão arcaicos das «relações humanas» quando a humanidade, na acepção clássica de maioria sem dinheiro, está totalmente fora de moda e posta em causa por esta nova raça que, nada tendo a ver com a espécie humana, é muito provavelmente o embrião de uma nova raça de deuses. Ou de macacos.
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(*)«Os Novos Milionários -- As Formas de Enriquecimento nos Nossos Dias», Robert Heller, Ed. Presença
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Saturday, May 13, 2006

PAULO COELHO 1991

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DE MAGO A ESCRITOR PELOS CAMINHOS DE COMPOSTELA
PAULO COELHO EXPLICA «BEST-SELLERS»:
«A FÉ É O SEGREDO DO MEU SUCESSO»

13-5-1991

«A minha obra ultrapassou-me», disse a «A Capital» o escritor brasileiro Paulo Coelho, de 44 anos de idade, cujo sucesso de vendas constitui no Brasil um fenómeno verdadeiramente único e sem precedentes neste País. «O segredo de tudo é a Fé e talvez seja também o do meu sucesso», declara o escritor, com a maior humildade intelectual.
Ele mantém-se à cabeça das listas de «best-sellers», facto que é registado por jornais e revistas de todas as tendências, incluindo a «Veja», que tira um milhão de exemplares por semana. Com três livros publicados desde 1987, Paulo Coelho conseguiu atingir, em menos de cinco anos, um milhão de exemplares vendidos dos seus três livros, o que, no Brasil, nunca antes acontecera com qualquer outro escritor, vivo ou morto, nacional ou estrangeiro.
A palavra «Deus» comparece assiduamente no discurso deste «mago» que se fez escritor, ainda que ele se confesse incapaz de definir o conteúdo da palavra. «Deus é mais uma experiência do que uma definição -- acentua --, posso vivê-lo, mas não explicá-lo». Quando se lhe fala do êxito público que os seus livros constituem e que a maioria da crítica ostensivamente ignora, exclama «Graças a Deus», sem deixar, no entanto, explícito se as artes mágicas também fizeram por isso alguma coisa, o acaso chamado sorte, o carisma que indiscutivelmente possui, o talento de narrador, enfim, os mil e um imponderáveis que, todos ou nenhum, podem ou não ter concorrido para o maior fenómeno editorial brasileiro de todos os tempos. Limita-se a mais uma evasiva: «O sucesso é uma coisa tão difícil de explicar como o insucesso.» E adianta: «Não posso dizer que, de início, esperava tudo isto. A verdade é que o acolhimento público foi muito além do que eu podia esperar. Quando, em Maio de 1987, lancei «O Diário de um Mago», eu visava um público médio de 3000 pessoas, que é aquele número que habitualmente se costuma interessar por estes assuntos. Acresce que o caminho iniciático de Santiago, de que faço o relato nesse livro, é uma coisa absolutamente desconhecida, um assunto sofisticado para o brasileiro.»
«Diário de um Mago» é, com efeito, o relato «jornalístico» da peregrinação que o autor, já então adepto da ordem Regnus Agnus Mundi, fez no caminho de Santiago de Compostela.
Não deixa de ser curioso que um brasileiro, rodeado de tradições mágicas e ocultistas com tão fortes raízes locais, se sentisse atraído por uma mística deste outro lado do Atlântico e que os próprios portugueses, embora lhe fique na fronteira Norte, quase todos ignoram.
Mas assim aconteceu e a verdade é que a TV Manchete, em coprodução com a TV espanhola, está neste momento a filmar, com base no livro de Paulo Coelho, um serial de 12 episódios que provavelmente será um êxito junto dos telespectadores, tanto como o livro o foi junto dos leitores.

A «BOLA DE NEVE»

O «milagre», porém, não de se deu de uma hora para a outra, mas gradualmente, como nos explica o autor: «Após várias edições do «Diário de um Mago», lancei, no ano seguinte, "O Alquimista" (em simultâneo com a editora Pergaminho de Lisboa) e só com o terceiro, "Brida", que é também um relato verídico, me dei conta do número de leitores que eu tinha.»
E foi a «bola de neve»: «De repente, vi-me capa das principais revistas e jornais do Brasil. Era célebre e quase não dera por isso.» Ele próprio repete a pergunta «Qual a razão deste sucesso?», dando logo a seguir a resposta: «Evidentemente que a ajuda de Deus é o mais importante, mas a segunda razão é que o meu livro é escrito de maneira que todo o leitor diz: "Eu podia ter escrito esse livro, está falando das coisas que eu sinto, as coisas que eu nunca coloquei no papel e, no entanto, eu gostaria de escrever".»

O MITO DO RETORNO

«O Alquimista», seu segundo livro, primeiro de ficção, retoma uma velha lenda persa que outros autores -- como Jorge Luís Borges, Jack London e John O'Ohara --- glosaram. Paulo Coelho vê nela, por um lado, o mito do retorno que o apaixona e, por outro, o meio ideal para veicular, através da narrativa, aquilo a que chama «os pilares básicos da Alquimia», e que nada têm a ver com a história, a saber: 1 -- A «anima Mundi» ou «Alma do Mundo», segundo a qual estamos todos responsáveis pelo próximo, tudo o que fazemos de bem se reflecte no mundo; 2 -- A linguagem do coração transmutada em amor; 3 -- A linguagem dos sinais, formando um código que te conduz pela vida; 4 - A lenda pessoal de cada um -- o homem ao encontro do seu próprio destino.

NÃO QUERO O RÓTULO DE GURU

Membro de uma ordem mística iniciática com alguma preponderância em Espanha -- a Regnus Agnus Mundi --, ele confessa que receia sobremaneira o rótulo de «guru», de que tantos se arrogam hoje em dia e que faz cair no descrédito tantas correntes: «Ninguém pode transmitir a sabedoria a ninguém, mas sim a técnica, apenas a técnica se pode ensinar: à maneira das correntes iniciáticas orientais, apenas se transmite a experiência, as técnicas para chegar à sabedoria».
E com toda a humildade de um «peregrino» que já calcurriou os caminhos de Compostela, adianta: «Embora os meus estudos de magia datem de 1969, fase em que a grande vaga era ainda a dos "hippies", só desde 1981 passei a fazer parte dessa ordem iniciática, regida por três grandes princípios: Rigor, Amor, Misericórdia.»
Isto, segundo conta, aconteceu depois de uma «travessia do deserto», em que perdeu totalmente a fé, voltando depois a reencontrá-la: «É sempre mais saboroso encontrar o que perdemos, do que aquilo que possuímos sempre».
Mas a integração em uma ordem iniciática não impede que Paulo Coelho preze, acima de tudo, o individualismo das experiências, o que, aliás, o torna um declarado simpatizante dos «gnósticos», como nos confirma: «A busca individual de Deus sempre me interessou muito nessa corrente.» Esta preferência explica que, no Brasil, tivesse prefaciado a obra organizada por Márcia Maia e editada pela Campus, que se intitula «Evangelhos Gnósticos». É que, hoje, qualquer livro que leve a chancela de Paulo Coelho é êxito editorial pela certa.

A GERAÇÃO DOS «HIPPIES»

Rigor, Amor e Misericórdia, os três princípios da ordem a que pertence, ligam-se assim ao tema do primeiro livro: «Você vê isso no caminho de Santiago. Vê a necessidade de se entregar, mas, ao mesmo tempo, a disciplina -- uma coisa que a minha geração foi muito custosa de aprender. Era uma geração para a qual todas as influências valiam, queria experimentar todos os caminhos e terminava não seguindo nenhum.»
Quando fala em «minha geração», Paulo Coelho assume que pertenceu à vaga dos «hippies» e dos sonhos utopistas que varreram o mundo estudantil nos anos 60: «A minha geração achava que todas as experiências valiam e isso tornou difícil, também para mim, a aceitação de uma disciplina e de um extremo rigor exigidos por uma ordem mística como aquela a que hoje pertenço».
Explicando melhor, afirma: «É a ideia do rigor, da disciplina e de você estipular um caminho no qual esteja aberto para as influências, para a riqueza do próprio caminho. Como dizia o poeta António Machado, "não há caminho, o caminho é feito ao andar".»
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Sunday, May 07, 2006

PAUL LAFARGUE 91

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7-5-1991

A REEDIÇÃO DESTE PAUL LAFARGUE

A reedição deste Paul Lafargue impunha-se como uma necessidade respiratória vital no abafado panorama de supérfluos que nos via asfixiando de frivolidades. Primeira prioridade de um realismo ecologista que se não deixou levar nas ondas retóricas da antipoluição, o tema do trabalho é recolocado nos seus termos exactos pelo filósofo francês: o «Elogio da Preguiça» goza o que deve ser gozado: a pretensão que o establishment económico continua a ter de relacionar produção e «prosperidade» económica com trabalho obrigatório, com horários longos, férias escassas, stress e opressão.
Lafargue teve a intuição do que viria a ser demonstrado cientificamente anos mais tarde: não é por muito trabalhar que se amanhece mais cedo. E não é porque se tem mais horas de trabalho que uma economia produz mais.
Esta que é uma verdade do evangelho libertador, um dogma da verdade que o sistema tem todo o cuidado em tapar das vistas profanas - para que o trabalhador nunca saiba e verdade do que o explora e oprime - já era tabu no tempo de Lafargue e tabu continua a ser, [---] anos depois deste manifesto ter sido publicado.
Afinal, temos a opresão que merecemos, enquanto tivermos os doutrinadores, os economistas, os políticos e os retóricos mentirosos que merecemos.
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